Do Recife, eu degustei o mundo

Turismo gastronômico

Guilherme Carréra

Restaurantes ajudam turistas e recifenses a provar da culinária internacional. Viaje pela América do Sul, Europa e Ásia, sem precisar pegar uma avião

Segundo a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes, Recife é o maior polo gastronômico do Norte e Nordeste. São mais de seis mil estabelecimentos formais na Região Metropolitana. E esse número cresce 10% ao ano, de acordo com Valter Jarocki, diretor executivo da Abrasel-PE. “Temos quantidade, qualidade e diversidade para receber os turistas”, afirma. Essa variedade se reflete em estabelecimentos de perfis, culinárias e nacionalidades distintas. Neste roteiro turístico-gastronômico, o Pernambuco.com propõe um mochilão internacional, sem sair do Grande Recife. Conhecemos restaurantes latinos, asiáticos, europeus. Sentamos à mesa e pedimos o cardápio. Visitamos suas cozinhas. Na hora de pedir a conta, nada de peso argentino, novo dólar de Taiwan ou notas de euro. O bom e velho real e a satisfação garantida.

Os únicos

Dentre as opções, alguns restaurantes se orgulham de representar países, sem o barulho da concorrência. No mais tradicional de todos, o taiwanês ComAqui (Rua Carneiro Vilela, 107, Espinheiro; fone: (81) 3427-2327; aberto todos os dias, das 12h às 15h), temos a chance de conhecer um pouco mais da cultura deTaiwan. Chien Chi Te e Cheng Su Na se conheceram em Douliu, na região central de Taiwan, e engataram um romance. Vieram ao Brasil em 1991 e se tornaram seu Mário e dona Suna. A experiência deles no forno e fogão impulsionou a criação do ComAqui, que antes funcionava em uma galeria comercial e, hoje, ganhou sede na própria casa dos dois. As filhas, Anny Chien e Fanny Chien, nascidas no Brasil e fluentes em português, mandarim e taiwanês, ajudam no salão. Na cozinha, tudo é preparado por Suna. Do Bazan (carne de porco, amendoim, shitaki e arroz moji, embrulhados na folha de bambu e cozidos a vapor) ao Xiao Long Bao (pão recheado com carne suína e temperado com gengibre, cozinhado a vapor). Entradas, a partir de R$ 6; pratos, a partir de R$ 17.

O taiwanês ComAqui é chefiado pelo casal Mário e Suna. Foto: Annaclarice Almeida/DP/D.A Press

Pródigo em gastronomia, o bairro do Espinheiro, na Zona Norte do Recife, tem no Burgogui (Rua Venezuela, 153, Espinheiro; fone: (81) 3222-5708; aberto de terça a sexta, das 11h30 às 15h e das 18h às 23h; e sábado e domingo, das 11h30 às 16h e das 18h às 23h) outra alternativa de cozinha asiática. NaCoreia do Sul, investe-se na pimenta. “Dizem que a comida chinesa é gordurosa; a japonesa, adocicada; e a coreana, apimentada”, ensina Soon Ja Choi, 70 anos e há 42 no Recife. Em 2002, junto ao marido, Kong Pil Choi, 72, montou o Burgogui. O nome da casa é o mesmo do prato principal. Preparado para a lista de condimentos? Sopa de soja com queijo tofu, massa de soja, kimchi (acelga desidratada, pimentão vermelho, pimenta, suco de gengibre e alho), amendoim adocicado, batatinhas carameladas, carne com tempero coreano, arroz e alface. Duplique isso tudo e o prato sai por R$ 54, para duas pessoas.

Soon Ja Choi prepara o burgogui, prato principal da casa. Foto: Lucas Oliveira/Esp. DP/D.A Press

No rol da alta gastronomia, em pouco tempo, o Chiwake (Rua da Hora, 820, Espinheiro; fone: (81) 3221-1606/3423-1529; no almoço, aberto de terça a sexta, das 12h às 15h; e no domingo, das 12h às 16h; no jantar, aberto segunda, terça e quarta, das 19h às 23h; quinta, das 19h à 00h; e sexta e sábado, das 19h à 1h) virou referência peruana na capital. O chef e proprietário Biba Fernandes, ao lado da esposa e sócia Manuela Lisboa, não é peruano, mas se encantou pelo país. Influenciados pelo Wanchako, tradicional cozinha peruana de Maceió (AL), o casal levou quatro anos até concretizar o projeto de abrir uma casa com as cores do Peru. “Vamos, pelo menos, duas vezes ao ano ao país. Compramos temperos, pesquisamos receitas, descobrimos restaurantes”, conta Manuela. A decoração do Chiwake colabora para criar o clima andino. Quadros, santos e jogos americanos foram trazidos de viagem. No prato, é o ceviche clássico que impera. Peixes e frutos do mar marinados no limão. As entradas, para mais de uma pessoa, custam, em média, R$ 42; as carnes, em torno de R$ 47; os peixes, em torno de R$ 53; e os frutos do mar, em torno de R$ 65.

Muito verde na área externa do restaurante peruano Chiwake. Foto: Arthur de Souza/Esp. DP/D.A


Uma pitada internacional

El Caminito nas molduras, Gardel na radiola e o charme de Evita Perón na parede. O Café Porteño (Rua da Hora, 712, Espinheiro; fone: (81) 3077-3006; aberto de terça a quinta, das 12h às 15h e das 17h à 00h; e sexta, sábado e domingo, das 12h à 1h) é plural. Reúne executivos no horário de almoço, amigos para um café no fim da tarde e casais para um jantar a dois. Marcada pela influência argentina, a casa dos irmãos Bruna e Romero Oliveira completou seis anos em 2012 e viu na efeméride uma oportunidade para se reinventar. A chef Sofia Mota é a responsável por isso. A nova aquisição para o comando da cozinha é positivamente paradoxal: jovem e experiente. Passou pelo Wiella Bistrô, Kojima, Nakumbuka, Jalan Jalan. Fez consultoria para buffets e eventos. Transitou de bares de praia à alta gastronomia. Parou no Café Porteño para somar. “Minha entrada vem também para tornar o cardápio mais internacional, porque a própria gastronomia na Argentina tem essa característica. A influência europeia vai se refletir nos novos pratos”, comenta Sofia. O carro-chefe portenho, o suculento bife de chorizo, agora vem acompanhado de batatas rústicas, com perfume de alecrim, chimi churi e farofa de pão. A promessa é de que o novo cardápio venha a público no fim de agosto. Os pratos principais devem variar entre R$ 35 e R$ 40.

Café Porteño é opção para almoço entre executivos, café entre amigos e jantar a dois. Foto: Arthur de Souza/Esp. DP/D.A Press

No discurso do El Chicano (Rua Sebastião Alves, 45, Parnamirim; fone: (81) 3269-5311; aberto de domingo a quarta, das 18h às 2h; e de quinta a sábado, das 18h às 3h), a mistura de culturas também é bem-vinda. De fortes traços mexicanos, a casa já experimentou fazer festivais de culinária latina, para misturar insumos típicos da Argentina, Peru e Chile. E foi um sucesso. “A ideia era ficarmos um mês com esse cardápio, mas estendemos por mais dois”, relembra Francisco Sousa, sócio e gerente. A decoração investe em imagens de Frida Kahlo, caveiras mexicanas e chapéus de mariachi. Com perfil mais alternativo, os clones de chope e tequila são o chamariz para o público jovem. Para alimentá-lo, a trinca massa, recheio e molho são os fundamentos básicos para os tacos, enchiladas, quesadillas e burritos do cardápio do México. Todos por uma média de R$ 19,90.

Clima totalmente mexicano no El Chicano, restaurante com cara de bar, no bairro do Parnamirim, Zona Norte do Recife. Foto: Ricardo Fernades/DP/D.A Press

Os ibéricos

De tanto treinar nosso portunhol no Peru, na Argentina e no México, fomos parar no espanhol Juanito (Rua Professor Eduardo Wanderley Filho, 336, Boa Viagem; fone: (81) 3327-2089; aberto de segunda a sexta, a partir das 18h; sábado, a partir das 12h; e domingo, das 12h às 18h). O barcelonês Juan Gatell se desdobrou para transformar o casarão, próximo ao Colégio Boa Viagem, em um microcosmo da Espanha. O trabalho de restauro durou dois anos. O projeto, do arquiteto Humberto Zirpoli, se esmerou nos detalhes. Como resultado, um típico pátio espanhol indoor. “Inicialmente, ele era aberto, mas tivemos que fechar por conta do barulho dos prédios ao redor”, explica o proprietário. Mesas de ferias sevilhanas e luminárias de Marrakesh ajudam a emular o clima ibérico. Além das tapas (pequenas porções individuais de pratos principais), paellas (arroz condimentado com peixes e frutos do mar) e fideuadas (espécie de paella, sem arroz e com macarrão), há iguarias vindas diretamente da Espanha, como o presunto pata negra e a linguiça de chorizo. As tapas começam em torno de R$ 13 e as paellas (para até três pessoas) podem chegar a R$ 87.

Pátio espanhol indoor é resultado do projeto de arquitetura de Humberto Zirpoli, para o Juanito. Foto: Alcione Ferreira/DP/D.A Press

Antes de deixar o bairro de Boa Viagem, na Zona Sul da capital, pegamos um voo de Barcelona para Barcelos, na região do Minho, Norte de Portugal. Aterrissamos no Tasca (Rua Dom José Lopes, 165, Boa Viagem; fone: (81) 3326-6309; aberto de terça a quinta, das 18h30 à 00h; sexta e sábado, das 18h30 à 1h; e domingo, das 12h às 17h), o único restaurante de Pernambuco a vencer por 32 vezes consecutivas o prestigiado Guia Quatro Rodas. “Comandar o Tasca foi uma escolha de vida”, garante Socorro Souto Maior, sócia de Silvina Moreira, cuja origem familiar é do Norte português. Tradicionalíssima no Recife, a casa, forrada com piso brennandiano, traz quadros, xales e guitarras portuguesas como elementos decorativos. São 64 lugares disponíveis ao cliente. Uma vez acomodado, carne bovina, frango, lagosta, polvo e, claro, bacalhau português. Vai uma sobremesa? O imbatível pastel de Belém. A unidade custa R$ 5,90.

Tradição portuguesa no restaurante Tasca, em Boa Viagem, Zona Sul da capital pernambucana. Foto: Ricardo Fernandes/DP/D.A Press

França X Itália

As cozinhas clássicas francesa e italiana são quase unanimidade entre os gourmets. Fomos atrás de espaços carregados de sotaque, mas sem a pompa que, normalmente, se associa a essas cozinhas. O descontraído Montmartre (Rua Alfredo Fernandes, 61, Casa Forte; fone: (81) 3268-7278; aberto de terça a domingo, das 17h às 23h30) coube na medida. Escondido em uma rua pouca movimentada no bairro de Casa Forte, Zona Norte da cidade, a creperia intimista do parisiense Patrick Lamarie existe há 12 anos. O cardápio, criação dele e da esposa Cecília Montenegro, tem como base a formação de Patrick em curso de creperia e as aulas de Cecília sobre culinária tradicional francesa, pastelaria e dietética, quando ambos ainda moravam em Paris. Os salgados saem, em média, por R$ 22, e os doces, por R$ 12. Designer gráfica no diploma, ela viu na hora de decorar o ambiente a oportunidade de exercer o senso estético. Juntou objetos que já tinha em casa, fez encomenda aos sogros residentes na França, restaurou mobília. “As janelas que decoram o salão principal iam pra o lixo. Resgatei pra dar um trato nelas”, conta. As charmosas luminárias, essas foram presente do amigo artista plástico Maurício Castro.

Luminárias do artista plástico Maurício Castro criam clima intimista na creperia Montmartre. Foto: Ricardo Fernandes/DP/D.A Press

Se da França para a Itália é um pulo, do Recife para Olinda, nem se fala. Fechando nosso circuito, o anifitrião Francesco Carretta fez as honras da casa. Natural de Pádova, na Itália, este chef prepara massas caseiras e decora os pratos com o manjericão que brota da horta do próprio quintal, na Cidade Alta. Os pratos giram em torno de R$ 35. Casado com Norma e pai de Tainá, juntos, os três fazem da casa com eira, beira e tribeira, onde moram, uma genuína trattoria italiana. “Na Itália, trattoria é aquele restaurante onde a própria família prepara o cardápio e serve as mesas. É mais informal do que um autêntico ristorante“, explica. Simples e aconchegante, a Trattoria Don Francesco (Rua Prudente Morais, 358, Carmo, Olinda; fone: (81) 3429-3852; aberto de terça a sexta, das 12h às 15h e das 18h30 às 23h; sábado, das 18h à 00h; e domingo, das 11h30 às 16h) vende, ainda, molhos de tomate à italiana e limoncello, um licor à base da casca do limão siciliano. Depois disso, é só pedir um cafezinho, enquanto espera a conta.

Simplicidade é o lema da Trattoria Don Francesco, na Cidade Alta de Olinda. Foto: Alcione Ferreira/DP/D.A Press
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